“O justo viverá por fé.” – Romanos 1.17

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Na próxima terça-feira, dia 31 de outubro, completarão 500 anos da Reforma Protestante. Um movimento europeu que mudou o mundo. Movimento do sec. XVI, em gestação há pelo menos 200 anos antes, nascido em um contexto de uma Europa Ocidental governada pela igreja que impunha seus dogmas, sua cosmovisão e distorções teológicas presas em sua época e cultura, confrontada por pensadores além de seu tempo. Neste aniversário de 500 anos que Lutero convoca a comunidade acadêmica para um debate sobre as práticas da igreja fixando suas 95 teses na porta da universidade de Wittemberg em 31 de outubro de 1517, necessário se faz privilegiar este homem e sua história honrando assim cada homem e cada mulher que, antes e depois dele, entregaram suas vidas na construção de uma sociedade mais justa diante de Deus e dos homens.

Neste mês que celebramos os 500 Anos da Reforma Protestante, é primaz que continuemos na busca e prática de uma espiritualidade ecumênica, que acolhe as diversas tradições cristãs e que “cremos que fomos salvos pela graça do Senhor Jesus, como também aqueles o foram.” (At 15.11).

Lutero fora ser monge não por amar a Deus, não por responder sua vocação, mas por ter muito medo Deus. Filho de um simples mineiro alemão que, com muita luta, pagou pelos estudos do filho com o objetivo dele se tornar um funcionário público e, assim, melhorar a condição financeira da família. Aos dezessete anos Lutero ingressou na Universidade de Erfurt, estudou filosofia, graduou-se bacharel e concluiu o mestrado. Seguindo os desejos maternos, inscreveu-se na escola de direito da mesma universidade. Mas tudo mudou após uma grande tempestade com descargas elétricas, ocorrida no ano em que Lutero cursava o primeiro período de direito (1505): um raio caiu próximo de onde ele passava, ao voltar de uma visita à casa dos pais. Aterrorizado, teria, então, gritado: “Ajuda-me, Sant’Ana! Eu me tornarei um monge!” Tendo sobrevivido aos raios, deixou a faculdade, vendeu todos os seus livros, com exceção dos de Virgílio, e entrou para a ordem dos Agostinianos, de Frankfurt, em 17 de julho de 1505.

Em seu exercício monástico, muitos aspectos de sua vida pessoal e da explicação que a igreja dava sobre os limites humanos, incomodavam profundamente este homem. Um desses aspectos, talvez o que mais o incomodava diante de suas limitações pessoais, era a explicação de que as obras dos santos garantiriam a salvação do indivíduo. Respondendo a esta afirmação da igreja, Lutero se tornara um monge exemplar, jejuava mais que os outros, orava mais que seus companheiros, se submetia aos trabalhos do monastério com maior intensidade e fazia mais serviços que qualquer outro e, ainda assim suas culpas o consumiam, nem a auto flagelação era suficiente para aplacar a dor de se sentir aquém daquilo que um homem deveria ser. Lutero se sentia, mesmo diante de todo seu esforço, longe de Deus e o pior dos pecadores. A igreja tinha outra proposta: as obras dos santos que tinham obtido salvação, mas tinham realizado “obras a mais” que as necessárias para tal, estas poderiam ser vendidas por um alto preço garantindo assim a salvação de quem a adquirisse ou a salvação de alguém, um parente ou um amigo, “que estivesse preso no purgatório” (conforme a tradição da igreja de então, o purgatório é o lugar intermediário entre a morte e a vida eterna, onde as almas que não conseguiram obras suficientes para a salvação, eram purificadas, purgadas, para assim, depois de tempos de sofrimento, conquistassem o direito do céu e da eternidade), fossem assim libertos tendo acesso direto ao céu. Aqui as famosas  indulgências vendidas pela igreja.

Lutero busca mais conhecimento e tem um encontro com o livro sagrado dos cristãos, a Bíblia. Este encontro se torna mais intenso, muitas leituras, traduções, interpretações e outro transformador encontro acontece, agora com a graça divina que se revela à Lutero em vários textos das Escrituras Sagradas, de forma muito especial na carta de Paulo aos Romanos, logo no primeiro capítulo (v. 17): O justo viverá por fé!

Diante deste encontro com a graça divina, Lutero elabora uma proposta de revisão dos dogmas e dos ensinamentos da igreja, as 95 teses são elaboradas e marcam a história da humanidade. Nelas alguns aspectos são privilegiados: (1) A salvação pela graça, mediante a fé em Cristo, e não pelas obras exigidas pela igreja, é o primeiro deles; após este, muitos outros. (2) Lutero propôs uma celebração na língua do povo, não em latim, todos e todas deveriam compreender e participar da celebração. (3) A Eucaristia deveria ser celebrada com os dois elementos, não apenas com o pão. O vinho, mesmo sendo o sangue de Cristo (transubstanciação), deveria ser tomado por todos. (4) Os cânticos não deveriam ser apenas os dos monges, os lindos gregorianos, Lutero agrega no culto, como didática, canções populares trocando suas letras originais por letras esclarecedoras das verdades das Escrituras. (5) As Escrituras deveriam ser lidas pelo povo, na língua do povo. Lutero traduz, primeiramente o Novo Testamento e depois o Antigo, para o alemão e os disponibiliza aos fiéis. Além disso, para que todos pudessem ler, escolas foram fundadas gratuitamente junto das igrejas. Educação para todos! (6) A comunhão com os santos também foi repensada, agora os santos adquirem um lugar exemplar de vida piedosa a ser imitado e seguido, mas não são intercessores, não são mais mediadores entre o humano e o Divino, somente Cristo, conforme as Escrituras, é o mediador. (7) Os sacerdotes (mediadores) deixam de ser sacerdotes e passam a ocupar um lugar de educadores, pastores, um presbítero docente; trocam suas batinas pela togas dos professores e servem suas comunidades educando-as, também adquirem o direito de se casarem e constituir família. (8) O conceito de vocação é aplicado a todo o tipo de trabalho, valorizando toda a sociedade, vocacionado não é apenas o que se dedica à igreja, mas cada um e cada uma em sua esfera de trabalho, o faz para Deus, diante de Deus, com Deus ao lado, na construção, por todos, de uma sociedade melhor para todos. (9) E a consideração do que é Palavra de Deus para a humanidade deve passar por uma leitura minuciosa e responsável das Escrituras através de um filtro: Cristo. Na prática, para Lutero, é Palavra de Deus tudo o que “promove a pessoa de Jesus Cristo”, que é a única e verdadeira “Palavra de Deus”. O que não promove a pessoa e os ensinamentos de Jesus, mas está registrado na Bíblia Sagrada, é apenas relato histórico e cultural.

Os princípios fundamentais da Reforma Protestante são conhecidos como os Cinco Solas: Sola Fide (somente a fé), Sola Scriptura (somente a Escritura), Solus Christus (somente Cristo), Sola Gratia (somente a Graça) e Soli Deo Gloria (glória somente a Deus); frases latinas que sintetizam os credos básicos dos reformadores, pilares dos quais creram ser essenciais à vida e prática cristãs, em contradição aos ensinamentos da Igreja Romana de então.

Atualmente somos confrontados com estatísticas que sugerem que ser cristão causa pouca ou nenhuma diferença na maneira de ser. Muitos se interessam tanto em fazer com que as pessoas “apenas” professem o cristianismo como fé que acabam diluindo o evangelho e a pessoa do Cristo. As mudanças causadas pelo evangelho deveriam transformar pessoas e culturas.

Contemplando a história da igreja e a realidade estabelecida em nosso país e no mundo, proponho o acréscimo de mais um Sola: o “Sola-Mento”. Nossa realidade é tão parecida com a dos tempos medievais que “só lamento” por vivenciarmos uma igreja e uma sociedade tão fechadas em si mesmas, carente das mesmas propostas que Lutero fez há 500 anos atrás.

Os desafios são muitos. Construamos, então, um caminho contínuo de reformas, de reflexões, de leituras e releituras, da Bíblia e do mundo, através da pessoa de Jesus Cristo. Assim amaremos mais, perdoaremos mais, acolheremos mais, renasceremos e geraremos vida nova onde estivermos. Que o evangelho não seja reduzido a celebrações e ritos, mas que seja expresso e propagado na vida e na sociedade!

Reverendo Jorge Diniz

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